No meu aniversário recebi um cartão muito
lindo, no qual a minha cliente escreveu:
Sil, minha querida, gostaria de lhe agradecer pelas inúmeras vezes que você me enxergou e me ajudou a me enxergar melhor do que sou pela sua capacidade de me olhar devagar, já que nesta vida muita gente me olhou depressa demais.
Fiquei pensando nesta frase: Já que muita gente me
olhou depressa demais, que coisa mais linda, não é? Quantas pessoas olham
para nós, e em um olhar fazem um julgamento, determinando dentro delas quem
somos.
Olhamos
depressa demais as pessoas sem sabermos de onde elas vêm, qual sua dor e, acima
de tudo: têm muita coisa por trás da aparência.
Esse
olhar de enxergar a beleza escondida do outro é o que toda pessoa que trabalha
na área da saúde deveria ter. Quem nos procura está em sofrimento, muitas vezes
perdido, atirando para tudo quanto é lado sem saber como resolver sua dor, e na
dor magoamos mais ainda as pessoas.
O
cartão desta moça me faz querer ser uma pessoa melhor, porque sendo uma pessoa
melhor posso ver ainda mais a beleza que existe dentro de cada pessoa que me
procura.
Nas
reuniões do grupo APOIAR também vemos muito isto, pessoas tão perdidas em tanto
sofrimento que se tornam diferentes do que realmente são.
E
quem pode negar as marcas que o passado deixa em nós? É a mulher que sofreu um
abuso sexual e hoje não consegue confiar em ninguém, se tornando uma pessoa
difícil de conviver, não porque ela é assim, mas porque é assim que se protege
de ser magoada como foi.
Ou
o menino que sofreu críticas constantes de seus pais e hoje não consegue ser
ninguém porque está sempre pensando: Não sou nada, nunca serei alguém,
pois a voz do pai ou da mãe continuam ecoando dentro dele como se fosse a
verdade absoluta em sua vida.
Crianças
que foram abandonadas ou espancadas se tornam extremamente agressivas, mas foi
isto que aprenderam? E como mudar tudo isto?
Muitas
pessoas boazinhas se acham no direito de julgar e condenar os que não são
bonzinhos, talvez sem perceberem que se tornaram bonzinhos e direitinhos
porque tiveram chances melhores e quem sabe quem seriam se tivessem passado
pela dor, abuso físico e emocional que os não bonzinhos passaram?
Afinal,
quem pode julgar de verdade?
Eu
tinha tudo para dar errado, a ansiedade me acompanhou desde muito pequena,
dificultou muito minha vida, eu era revoltada com tudo, porque o mal-estar era
tão grande que eu aprendi a reagir em função da dor emocional que sentia o
tempo todo. Apesar de todas as críticas de meus pais e familiares eu percebia
que havia em mim algumas coisas que não via em outras pessoas boazinhas e
normais.
Minha
criatividade sempre foi algo fantástico, o que eu resolvesse aprender eu
aprendia, desde pequena pintava lindos quadros e aprendi a fazer quase todo
tipo de artesanato. Se eu pegasse algo para decorar, em poucos minutos tinha
criado algo bonito, resolvi cozinhar e minhas comidas eram deliciosas. As
pessoas diziam coisas negativas de mim, mas eu sentia que tinha alguma coisa
boa.
Meu
primeiro grande feedback foi de um professor, foi pedido à classe que
escrevesse uma redação sobre a Terra, e a minha foi eleita a mais linda da
turma e fui ler na frente da classe. Para mim que me achava um nada (feia,
magrela, burra) aquilo foi uma honra, e o professor no final da aula me chamou
e me disse: Um dia você será uma escritora. O que ele falou ficou comigo
como a primeira lembrança de alguém ter me elogiado, me visto de maneira mais
longa. Eu tinha 12 anos, então, esperei 12 anos para me sentir elogiada, para
ver vista!
Eu
poderia ter me envolvido com drogas e pessoas que tinham comportamentos
destrutivos, não faltaram oportunidades, mas fiz escolhas diferentes, no fundo
eu queria ser uma pessoa valorosa, admirada. E fui passando a vida em quedas e
decepções comigo mesma, nunca conseguindo ser a pessoa que desejava, até que
veio a Síndrome do Pânico, e este foi meu primeiro momento de acordar. Aprendi
que para eu estar com aquele transtorno era preciso que muita coisa estivesse
em desequilíbrio dentro de mim, e foi quando conheci a meditação, yoga, o poder
do exercício na cura e o poder do pensamento claro e sem autoacusação.
Conheci
o Budismo, que, diferente das religiões de que eu havia participado, me dizia
para eu ter compaixão comigo, para me aceitar, ao invés de ficar com medo de ir
para o inferno ou umbral, seja lá o nome que deem à punição aos que não são
bons.
E
na autocompaixão e autoaceitação, percebi que havia muita coisa boa dentro de
mim e que queria me focar nas minhas qualidades, já que tinha gente demais
focada nos defeitos.
Montei
o grupo APOIAR e, apesar de meus defeitos e de tantas críticas à minha pessoa,
pensei no potencial que tenho e não no que me falta. Eu nunca seria quem sou se continuasse e pensar no que não
sou,
nunca teria tido a chance de ajudar tantas pessoas como já ajudei até hoje
sendo presidente do Grupo Apoiar e como terapeuta e Coach.
Muitos
dos bonzinhos que conheci continuaram dedicando sua vida a seus familiares, ao
seu pequeno mundo. Nós, os não bonzinhos, somos empurrados a uma direção de um
amor mais universal. O mundo se torna maior para nós.
E
é isto que vejo nesta moça que me escreveu o cartão de aniversário, tudo de
fantástico que tem dentro dela, sendo abafado por tudo de negativo que
aconteceu no passado. Vamos procurando
uma brecha emocional, para que ela veja a pessoa maravilhosa que é.
Percebo
que às vezes ela chora emocionada nas nossas sessões, quando tem aqueles
vislumbres da luz que existe dentro dela, mas é tão rápido, passa tão depressa,
e ela volta a ver os defeitos.
Sei,
porém, que tem algo extraordinário dentro dela e em algum momento isto vai
explodir em luz que se expandirá a sua volta e um dia com certeza irá perceber
que ser “normoide” não é a melhor escolha.
Ser
bonzinho por medo não é uma opção, é uma obrigação. E depois, olhando todos os
erros, vemos os aprendizados, os erros do passado são a sabedoria de hoje. Quem
viveu uma vida morna e sem erros, nada aprendeu, nada ousou.
O
importante é acreditar em você mesmo, olhar para as qualidades buscando se
tornar quem você está destinado a ser.
Obrigada, minha querida, pelo lindo cartão. Espero que
você não desista de si mesma, da mesma forma que não desisti de mim, e ainda
que eu veja a quantidade de defeitos que ainda carrego, sinto que a cada dia
procuro me concentrar no Deus que existe em mim, e assim a cada dia permito
mais que Ele brilhe em meu coração e minha mente.
Muita
paz. Silvana Prado CLIQUE AQUI e veja matérias e MP3 de EFT
Que lindo...essa dor relatada por ela é extamente a dor dela não se olhar em primeiro lugar,é impossível
ResponderExcluirter relações saudáveis e maduras sem você saber em primeiro lugar quem você é, isso da um trabalho...srsr coloca tempo nisso rsr; as relações ficam mesmo muito embaraçadas e vc se perde no embaraço,como disse alguem "ore não até ser ouvida mas até você ouvir a Deus" ;conquistar silêncio por dentro é o grande lançe! rss bju Parabens pelo trabalho.